Salim Mattar e a vocação para empreendedorismo

O empreendedor Tallis Gomes afirma que disciplina militar o ajudou a empreender e ter sucesso

Ícone do pensamento liberal no Brasil, José Salim Mattar construiu mais do que uma das maiores empresas de mobilidade da América Latina: fez da Localiza a tradução prática de uma convicção que carrega desde a juventude — a de que o desenvolvimento econômico depende, sobretudo, de liberdade para empreender.

“A única forma de colocar o Brasil no caminho da prosperidade é através do liberalismo”, disse à Gazeta do Povo o empresário, que hoje se dedica à difusão de seu ideal por meio do Instituto Liberal e do Instituto para Formação de Líderes (IFL).

A Localiza que existe hoje — líder na América Latina, avaliada em dezenas de bilhões de reais, com centenas de milhares de veículos e presença internacional — é a expressão da disposição de avançar quando o ambiente inteiro aponta na direção contrária.

O avanço é viabilizado pelo que Salim considera essencial: o espírito do empreendedor. “O empreendedor, ele chuta a porta, derruba barreiras… qualquer dificuldade que apareça ele destrói porque quer ir em frente”, preconiza o empresário.

A origem dessa mentalidade remonta à adolescência, em Belo Horizonte. Ainda no ensino médio, Mattar teve acesso a leituras pouco comuns no ambiente escolar brasileiro. Primeiro, A Riqueza das Nações, de Adam Smith. Depois, O Caminho da Servidão, de Friedrich Hayek.

“Se aos 16 anos eu conheci Adam Smith, aos 17 Hayek, efetivamente eu estava predestinado a ser empreendedor”, já afirmou o empresário ao relembrar sua biografia.

Para ele, “enquanto o Estado gigante gera pobreza e desigualdade, o empreendedorismo delega aos indivíduos e à iniciativa privada o protagonismo na economia e na sociedade”.

VEJA TAMBÉM:

  • O empreendedor bilionário que critica a CLT e atribui sucesso à disciplina militar

  • Ilustração editorial de um empresário pressionado por labirinto burocrático e crise econômica, simbolizando os desafios da reforma tributária para PMEs.

    Pequena e microempresa encaram reforma tributária em meio a custo em alta e juro caro

Sonho de pianista; vida de empreendedor

A formação intelectual do empresário se combinou a uma experiência prática precoce. Filho de um comerciante, começou a trabalhar ainda criança. A disciplina era rígida e o caminho, traçado sem margem para desvios.

Numa tarde de sábado, pediu ao pai para estudar piano, inspirado por um amigo da escola. A reação foi imediata e física. “À medida que eu fui falando, a mão dele, que segurava meu braço, foi apertando. Eu sabia que estava dizendo alguma besteira naquele momento”.

O pai negou o pedido e reuniu todos os onze irmãos para declarar o veredito. “Você vai crescer, abrir um comércio, ganhar dinheiro para comprar uma casa e adquirir a melhor radiola que tiver, mas vai tirar da sua cabeça as ideias de ser pianista”, disse.

O episódio ajuda a entender o pragmatismo que marcaria as decisões de Salim dali em diante — com foco em resultado, aversão a desvios e disposição para assumir responsabilidades desde cedo.

A frota de seis fuscas que virou a maior do país

Foi com essa combinação — ideias e prática — que surgiu a ideia da Localiza. Aos 17 anos, ao pagar uma conta em uma locadora de veículos, Mattar fez um cálculo simples: multiplicou o valor da diária pelos dias do ano e percebeu o potencial de retorno.

O contexto, porém, era adverso. O mundo enfrentava o primeiro choque do petróleo, após a Guerra do Yom Kippur, e o preço dos combustíveis disparava. Abrir uma locadora naquele cenário parecia um contrassenso. Amigos, familiares e analistas apontavam o risco evidente: e se faltasse gasolina?

Mattar seguiu em frente mesmo assim. Ao lado de Antônio Cláudio Brandão Resende, único a acreditar na ideia, iniciou a operação com seis Fuscas usados, todos financiados separadamente.

Os próprios sócios dirigiam, lavavam, faziam manutenção e até dormiam no escritório para garantir atendimento contínuo. A estrutura era improvisada, mas havia um padrão claro: agir, mesmo quando o cenário recomendava esperar.

Esse padrão se repetiria nos momentos seguintes. Em 1979, ao decidir expandir para fora de Minas Gerais, a empresa enfrentava um novo choque do petróleo. O conselho externo era recuar. Mais uma vez, foi ignorado.

A estratégia seguiu baseada na expansão gradual e na aquisição de pequenas operações. Em 1981, a Localiza já era líder nacional, presente em 11 capitais — ainda sem atuar nos mercados de São Paulo e Rio de Janeiro. “Tomamos a sopa pela borda”, explicou Mattar ao descrever a lógica de crescer primeiro onde a concorrência era menor para ganhar escala.

O insight por instinto

Ao longo da trajetória, outro traço se consolidou: a capacidade de transformar problemas em oportunidades de negócio. Foi assim na criação da divisão de seminovos, quando a empresa decidiu eliminar intermediários na venda de veículos e capturar a margem dessa operação. O que era custo virou uma das engrenagens mais relevantes da companhia.

Também foi assim em momentos decisivos de capitalização. Em 1997, diante da proposta de um fundo americano para investir US$ 50 milhões em troca de um terço da empresa, Mattar hesitou após ouvir opiniões contrárias.

A decisão veio após um cálculo direto, que ele chama de “conta de libanês”: depois de mais de 20 anos, a empresa havia acumulado cerca de US$ 40 milhões em patrimônio. O aporte superava esse valor de uma só vez. O acordo foi fechado e abriu caminho para a profissionalização e a expansão acelerada.

A abertura de capital, em 2005, e a aquisição da operação brasileira da Hertz alavancaram a empresa a um novo patamar, ampliando sua presença internacional e diversificando suas frentes de atuação.

VEJA TAMBÉM:

  • Impostos

    Escalada de impostos e baixo retorno expõem peso do governo sobre o país

  • Santos-Dumont e seu 14-Bis: era de ouro da inovação

    Berço de grandes invenções, o Brasil parou de inovar. Por quê?

A frustração na passagem pelo governo

A experiência no setor público ajudou a consolidar suas convicções. Em 2019, Mattar assumiu a Secretaria de Desestatização no governo de Jair Bolsonaro, com a missão de conduzir um programa de privatizações. O convite veio do então ministro da Economia, Paulo Guedes.

Cofundador do Pactual, Guedes teve papel central na abertura de capital da Localiza, em 2005. Na sequência, Salim o convidou para integrar o Conselho de Administração da locadora, posição que Guedes ocupou por três anos. Em 2018, os papéis se inverteram.

A missão no governo era ambiciosa: conduzir a venda de mais de 600 estatais e levantar quase R$ 1 trilhão com a comercialização de participações do BNDES e de outros bancos públicos em empresas privadas.

Salim classifica a experiência como “única, impagável e espetacular”, por proporcionar um aprendizado impossível de ser obtido em livros ou universidades. Em contrapartida, o relato sobre Brasília é marcado por uma crítica feroz ao que chama de “Leviatã” burocrático. Segundo ele, o sistema foi “feito para não funcionar”.

Mattar se deparou com uma realidade em que órgãos se sobrepõem apenas para se fiscalizarem, criando uma máquina gigantesca e travada. Ele acabou frustrado com a impossibilidade de avançar sobre as maiores estatais — como Banco do Brasil, Caixa Econômica e Petrobras — além dos Correios, cuja privatização depende de aprovação por lei específica.

Ainda no governo, em entrevista à Gazeta do Povo, Mattar reiterou críticas ao tamanho do Estado, defendendo uma redução ampla da máquina pública e maior liberdade econômica.

Também defendeu a privatização da Petrobras. “Se o governo quiser acabar com as greves de caminhoneiros no Brasil, basta simplesmente vender sua participação na Petrobras”, afirmou em 2022, diante da paralisação nas estradas.

Hoje, mesmo desligado da Localiza e da esfera pública, reafirma sua convicção. “Precisamos fazer o desmonte da máquina pública nas esferas federal, estadual e municipal para ter um Estado menor, enxuto e eficaz em um ambiente de liberdade”, defende.

“A elevada carga tributária alimenta um Estado lento, pesado, burocrático e ineficiente, que se utiliza do grande volume de dinheiro arrecadado dos pagadores de impostos, sendo esses recursos geridos pelos burocratas. Assim, surgem então os privilégios para os servidores e a corrupção desenfreada a que temos assistido desde a dita redemocratização do país, em 1986, e o sistema de governos de coalizão.”

A opção pela batalha pelas mentes

A frustração pelo não avanço do programa culminou na saída do governo, em 2020. Foi nesse momento que Mattar decidiu redirecionar sua atuação — não para a política eleitoral, mas para o campo das ideias.

A escolha foi inspirada em um episódio que ele costuma relatar. Após ler O Caminho da Servidão, um empresário britânico procurou Hayek com a intenção de entrar na política. O conselho foi outro: “Não entre na política se você deseja mudar… fique no campo das ideias”. Esse empresário, Antony Fisher, fundaria o Institute of Economic Affairs.

O impacto dessa decisão se materializou em um exemplo concreto: “Pelos bancos desse instituto passou uma jovem brilhante, muito inteligente, que chegou a ser a primeira-ministra da Inglaterra por 12 anos: Margaret Thatcher”, conta Mattar.

Ele seguiu a mesma premissa, retomando um caminho que já havia semeado: nos anos 1980, o empresário já havia financiado a tradução de A Revolta de Atlas, referência do pensamento liberal, e ajudado a fundar o Instituto Liberal. Em 2000, participou da criação do Instituto Millenium. Depois, apoiou o projeto “Liberdade na Estrada”, que levou palestras liberais a universidades pelo país.

Convencido de que “ideias, somente ideias podem iluminar a escuridão”, sua aposta é estratégica e de longo prazo. Mattar concentra seus esforços na convicção de que a verdadeira transformação do Brasil virá da cultura e da educação da juventude.

Ele acredita que o investimento em formação pode produzir, em algum momento, uma liderança capaz de implementar essas ideias no país. “Uma certa hora um jovem vai passar pelos bancos dos nossos estudos e chegar lá”, projeta.



Fonte ==> UOL

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *