O corredor estreito do Brasil – 25/04/2026 – Ana Paula Vescovi

Ilustração, do Amarildo, em fundo claro mostra um caminhão verde fortemente inclinado para trás, como se estivesse empinado pelo excesso de peso na carroceria. Na cabine, um motorista de terno aparece assustado, com expressão de pânico. Sobre a carroceria, três grandes sacos pesados trazem os dizeres: “Instituições frágeis”, “Regras instáveis” e “Alto custo estrutural”. Na lateral do caminhão há uma bandeira do Brasil. Presas à dianteira do veículo, três cordas são puxadas por três homens pequenos, curvados pelo esforço, identificados como “Estado”, “Sociedade” e “Mercado”. Eles tentam arrastar o caminhão para frente, mas o peso dos sacos parece impedir o movimento. A cena usa exagero visual para representar dificuldade, sobrecarga e o esforço coletivo para mover um sistema travado.

O Brasil tem uma característica recorrente: realiza reformas quando encurralado por crises.

Foi assim no Plano Real, diante de uma hiperinflação que corroía a economia. Foi assim, mais recentemente, de 2016 a 2019, na resposta à deterioração das contas públicas e da credibilidade macroeconômica.

A história sugere que avanços institucionais relevantes ocorrem quando o país se aproxima de um limite. Quando o custo de não agir supera o custo de reformar. Essa dinâmica, portanto, não é exclusiva do Brasil.

Em “O Corredor Estreito”, Daron Acemoglu e James Robinson mostram que o desenvolvimento econômico depende de um equilíbrio delicado entre Estado e sociedade. Um “corredor estreito” no qual instituições são suficientemente fortes para coordenar, mas suficientemente limitadas para não capturar.

Fora desse corredor, o resultado seria ou um Estado frágil, incapaz de prover bens públicos, ou um Estado excessivamente dominante, que sufoca incentivos e reduz a eficiência econômica. O Brasil oscila entre esses extremos.

Temos um Estado grande, mas pouco eficaz. Gastamos muito e gastamos mal. Temos uma carga tributária elevada, dívida pública alta e crescente, combinada com baixa qualidade de gasto. Um ambiente de negócios complexo, em que regras são instáveis e o custo de capital permanece elevado mesmo em ciclos de queda de juros.

Costumamos atribuir esse quadro ao desequilíbrio fiscal. Mas essa é uma leitura parcial. O desequilíbrio fiscal é a manifestação de fatores mais profundos: uma estrutura de renda desigual, um processo demográfico que pressiona o gasto público e, sobretudo, instituições que não conseguem alinhar incentivos de forma consistente ao longo do tempo.

O resultado é um sistema que gera custo elevado de capital, baixa produtividade e crescimento limitado (ainda que, em vários momentos, apresente sinais de recuperação cíclica).

O que torna o momento atual particularmente relevante é o contexto global. A economia internacional passa por uma reconfiguração importante. Cadeias produtivas se tornam mais fragmentadas e regionais, recursos naturais voltam ao centro das decisões estratégicas, e o custo de garantir segurança energética e alimentar aumentou.

Nesse novo ambiente, países com abundância de recursos naturais (terra, água, energia e minerais) ganham relevância relativa. O Brasil está entre eles. Mas essa vantagem não é automática. Ela precisa ser convertida em valor econômico e desenvolvimento. E isso depende, fundamentalmente, da qualidade das instituições.

A diferença entre países que capturam oportunidades e aqueles que as desperdiçam não está apenas na dotação de recursos, mas na capacidade de organizar regras estáveis, reduzir incertezas e alinhar incentivos. Esse é o verdadeiro “corredor estreito” brasileiro. A boa notícia é que o país já mostrou ser capaz de avançar quando pressionado. A má notícia é que, em geral, espera a crise para agir.

O desafio agora é antecipar o movimento, ou seja, percebermos a imensa vantagem que temos diante de uma reconfiguração global muito rápida. Reformas que melhorem a qualidade do gasto público, simplifiquem o ambiente de negócios e fortaleçam a previsibilidade institucional não são apenas desejáveis. São condição para que o Brasil transforme sua vantagem potencial em crescimento sustentado. Romper esse padrão exige deslocar o eixo da mudança.

Não se trata apenas de esperar decisões do sistema político, mas de reconstruir uma base mais ampla de coordenação entre sociedade, setor produtivo e instituições independentes.

Experiências bem-sucedidas mostram que reformas duradouras emergem quando há convergência entre pressão social organizada, capacidade técnica e compromisso com regras que transcendam ciclos eleitorais.

No Brasil, isso implica fortalecer organizações que operam com visão de longo prazo e ampliar o papel de um setor privado disposto a competir em ambiente mais aberto, não apenas a proteger posições estabelecidas. Esse processo também exige um ajuste menos visível, mas decisivo: a disposição de abrir mão de benefícios particulares em favor de um sistema mais equilibrado. A manutenção de exceções, subsídios cruzados e regimes diferenciados pode ser racional no nível individual, mas, no agregado, sustenta um ambiente de baixa produtividade e alto custo.

A saída desse ciclo passa por reconhecer que o ganho coletivo (mais crescimento, mais investimento e menor custo de capital) depende de uma revisão gradual desses arranjos. É nesse ponto que a agenda institucional deixa de ser abstrata e passa a ser uma escolha concreta de país.

Em um mundo mais fragmentado e competitivo, esperar o próximo momento de crise pode significar perder uma janela histórica. O Brasil não precisa estar à beira do precipício para avançar. Mas, para isso, precisa reconhecer que seus desequilíbrios mais visíveis são apenas sintomas de um problema mais profundo (institucional).

É justamente aí que começa a solução. E ela cabe a cada um de nós.



Fonte ==> Folha SP

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