As recentes operações dos Estados Unidos na Venezuela e no Irã tiveram um efeito além dos alvos imediatos: expuseram fragilidades nos sistemas de defesa aérea fornecidos pela China a Caracas e Teerã, colocando em dúvida a eficácia do aparato militar promovido por Pequim.
No caso da Venezuela, o regime de Nicolás Maduro havia montado um robusto arsenal antiaéreo, fruto de décadas de aquisições de sistemas de defesa junto aos regimes da Rússia e China. Segundo análise da organização ChinaPower Project, do think tank Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), entre 2010 e 2020, a China foi o segundo maior fornecedor de armas da Venezuela, respondendo por 16,4% das compras militares do país, atrás apenas da Rússia (59,6%). No mesmo período, a Venezuela concentrou 85,8% de todas as exportações militares chinesas para a América Latina.
Entre os equipamentos vendidos por Pequim ao regime chavista estavam os sistemas que falharam durante a operação americana que capturou Maduro: os radares JYL-1, JY-11 e JY-27A, conforme identificou a Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China (USCC), órgão do Congresso americano, em relatório publicado dias após a captura de Maduro.
O JY-27A é comercializado por Pequim como um radar “antifurtividade”, com capacidade de detectar aeronaves de quinta geração dos EUA, como os caças F-22 e o F-35. Nenhum dos radares chineses adquiridos por Caracas para detectar incursões aéreas funcionou como prometido.
O general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA, confirmou que mais de 150 aeronaves americanas participaram da operação de janeiro na Venezuela. Nenhuma dessas aeronaves americanas foi detectada e abatida pelas forças chavistas. Caine disse ainda que os EUA aplicaram efeitos de guerra cibernética e espacial para abrir um corredor de acesso a Caracas, o que culminou na neutralização completa dos sistemas de radar e defesa aérea venezuelanos, incluindo os de origem chinesa.
O diplomata Arturo McFields, dissidente do regime da Nicarágua e mestre em relações internacionais, avaliou em artigo publicado no jornal The Hill que o episódio escancarou a distância entre a propaganda militar chinesa e o desempenho real de seus equipamentos em cenário de guerra.
“Os radares JY-27A sempre impressionaram em desfiles militares, mas se revelaram cegos, surdos e mudos no combate real”, escreveu McFields.
Segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), a China é o quinto maior exportador mundial de armas, respondendo por 4,79% do comércio global do setor entre 2000 e 2024, ficando atrás dos Estados Unidos (34,66%), Rússia (20,68%), França (7,83%) e Alemanha (6,5%).
Levantamento do think tank americano RAND Corporation mostra que, somadas as empresas de segurança privada chinesas, que protegem portos, minas e projetos de infraestrutura em diversos países, a presença militar de Pequim já alcançou 48 nações na Ásia, África e América Latina. A credibilidade desse instrumento de projeção de poder militar de Pequim, no entanto, foi abalada pelas operações americanas contra o Irã e a Venezuela.
Dias após a operação na Venezuela, Pequim se esquivou de responder a questionamentos sobre a eficácia dos equipamentos militares que havia vendido a Caracas. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do regime comunista, Lin Jian, limitou-se a condenar a ação americana como violação da soberania venezuelana e das normas do direito internacional.
Irã: outro colapso do sistema de defesa chinês
O Irã também é um importante cliente da indústria bélica chinesa. Sancionado por países do Ocidente e impedido de adquirir armamento moderno nos mercados tradicionais, Teerã apostou na compra de sistemas de Pequim para reforçar sua defesa aérea.
Em julho de 2025, após ser alvejado por EUA e Israel, fontes da inteligência árabe citadas pelo jornal Middle East Eye, disseram que o regime iraniano recebeu baterias do míssil chinês HQ-9B, numa transação de petróleo por armamento, mecanismo frequentemente usado para contornar as sanções americanas.
O sistema, desenvolvido pela estatal China Aerospace Science and Industry Corporation e inspirado no sistema russo S-300, foi integrado a uma defesa em camadas que incluía ainda o S-300PMU-2 russo, o iraniano Bavar-373 e plataformas de médio e curto alcance como Khordad-15, Tor-M2 e Pantsir-S1.
No papel, o armamento chinês completou um dos arsenais antiaéreos mais robustos do Oriente Médio. Na prática, porém, o sistema chinês, em conjunto com os demais, não conseguiu detectar ou impedir os ataques coordenados de EUA e Israel em 28 de fevereiro, que atingiram naquele momento mais de 20 províncias iranianas, destruíram instalações militares estratégicas e mataram grande parte da alta cúpula política e militar do regime islâmico, incluindo o aiatolá Ali Khamenei e comandantes da poderosa Guarda Revolucionária.
Segundo a imprensa americana, os sistemas chineses HQ-9B que estavam implantados ao redor de Teerã não conseguiram impedir nenhum dos bombardeios.
Paquistão também enfrentou falhas em sistemas chineses
Em maio de 2025, equipamentos de defesa fornecidos pela China ao Paquistão também foram colocados à prova durante a chamada Operação Sindoor, lançada pela Índia em resposta ao atentado terrorista em Pahalgam, na Caxemira.
O Paquistão, que importa cerca de 80% de seu material militar da China, segundo relatório de 2025 do Sipri, dependia dos radares YLC-8E e das baterias antiaéreas HQ-9 para proteger instalações estratégicas.
A Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China do Congresso americano apontou que o confronto de quatro dias com a Índia, em maio de 2025, marcou a primeira utilização em combate das baterias chinesas HQ-9. Ainda assim, veículos da imprensa indiana relataram que o aparato não conseguiu impedir a ofensiva de Nova Delhi. Mísseis de cruzeiro BrahMos teriam atingido bases protegidas pelos equipamentos chineses sem enfrentar resistência efetiva.
“Qualquer país do mundo que possua equipamentos de defesa chineses está agora revisando suas defesas aéreas e se perguntando quão seguro realmente está”, declarou Michael Sobolik, pesquisador sênior do Hudson Institute, em entrevista à agência Reuters.
Fonte ==> Gazeta do Povo