À medida que o presidente Donald Trump e seu governo se aproximam das eleições de meio de mandato, está claro agora que o Partido Republicano se dividiu em três facções: os republicanos “Trump nunca”, que se recusam a votar neste homem antiético; os republicanos “América Primeiro”, que apoiam as políticas de Trump mas não toleram que ele destrua as normas e leis americanas; e os republicanos “Trump Primeiro” —aqueles que acham que os ditames de Trump vêm primeiro e que a Constituição e as normas tradicionais vêm em segundo lugar.
A coisa mais alarmante acontecendo nos Estados Unidos hoje é que os republicanos “Trump Primeiro”, sob ordens de Trump, estão expurgando os poucos republicanos “América Primeiro”. Então, se o Partido Republicano mantiver a Câmara e o Senado nas eleições de meio de mandato, não haverá absolutamente nenhum freio para este partido e este presidente.
Eu não descartaria de forma alguma que eles pressionem por um terceiro mandato de Trump. Estamos indo para um lugar muito ruim.
Basta olhar para a tendência: os republicanos “Trump Nunca”, que incluíam conservadores tradicionais como Liz Cheney, John McCain e Mitt Romney, não acreditavam em Trump como pessoa nem em muitas de suas ideias. Eles achavam que ele desonrava tanto a Constituição quanto os verdadeiros princípios conservadores. Infelizmente, porém, McCain morreu, Cheney foi forçada a sair do partido e Romney abandonou completamente a política.
Os republicanos “América Primeiro” estavam prontos para apoiar muitas ideias de Trump —reduzir impostos ou limitar a imigração ou esvaziar a esquerda identitária— mas quando chegava a hora de escolher entre avançar com essas ideias e minar a democracia, essa facção traçava uma linha inegociável. Eles colocavam a América em primeiro lugar, não Trump em primeiro lugar.
Estou falando de pessoas como o ex-vice-presidente Mike Pence, o senador Bill Cassidy, republicano da Louisiana, e os legisladores estaduais de Indiana e Carolina do Sul que se recusaram a participar do vergonhoso gerrymandering fora do ciclo eleitoral de Trump, feito apenas para aumentar as chances do Partido Republicano de manter a Câmara. Mas agora eles também estão sendo expulsos do partido.
Cassidy, o republicano de dois mandatos que votou pela condenação de Trump em seu julgamento de impeachment de 2021, acabou de ser derrotado por um republicano “Trump Primeiro” em sua primária. O embate entre Cassidy e Trump foi revelador. Embora não tenha mencionado Trump pelo nome em seu discurso de reconhecimento de derrota, não havia dúvida acerca de quem Cassidy estava falando.
“Deixe-me esclarecer as coisas”, disse. “Nosso país não é sobre um indivíduo. É sobre o bem-estar de todos os americanos, e é sobre nossa Constituição. E se alguém não entende isso e tenta controlar os outros usando as alavancas do poder, está servindo a si mesmo. Não está nos servindo. E essa pessoa não está qualificada para ser um líder.”
A resposta de Trump foi mais direta —e incrivelmente reveladora. Ele escreveu nas redes sociais sobre Cassidy: “Sua deslealdade ao homem que o elegeu agora faz parte da lenda, e é bom ver que sua carreira política acabou!”
Leia essas palavras com atenção: “Sua deslealdade ao homem” —não à Constituição— foi o que o derrotou. Trump primeiro.
O senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, que parece disposto a abandonar qualquer princípio que já teve para permanecer ao lado de Trump e continuar sendo seu parceiro de golfe, expressou a essência dos republicanos “Trump Primeiro” depois que Cassidy perdeu:
“Você pode discordar do presidente Trump”, disse Graham, “mas se você tentar destruí-lo, você vai perder, porque este é o partido de Donald Trump.”
Leia essas palavras com atenção também: não é o partido dos republicanos, é “o partido de Donald Trump”, o que significa que é o que Trump disser que é. Mas a parte mais reveladora da citação de Graham foi: “Se você tentar destruí-lo, você vai perder.”
Tradução: se você votar, como Cassidy fez, para condenar Trump depois que ele sofreu impeachment por incitar uma insurreição na capital de nossa nação em um esforço vergonhoso para reverter a eleição livre e justa de 2020, significa que você está tentando “destruir” Trump —não proteger a América.
Para Graham, defender a Constituição aparentemente equivale a tentar “destruir” um homem, mesmo quando esse homem estava tentando destruir o princípio mais sagrado de nossa Constituição: a transferência pacífica de poder por meio de eleições.
Não se preocupe, Lindsey, seu lugar na rotação de golfe de Trump está garantido.
Pelo menos Cassidy não está sozinho na ala América Primeiro do Partido Republicano. Meu colega David French escreveu eloquentemente sobre o líder da maioria republicana no Senado da Carolina do Sul, Shane Massey, que na semana passada fez um discurso explicando por que não concordaria com o pedido pessoal de Trump para que ele apoiasse um gerrymandering para eliminar o único distrito do estado controlado pelos democratas.
Como um verdadeiro republicano “América Primeiro”, Massey descreveu a si próprio como um “partidário ferrenho” e aos democratas de Washington como “loucos”, mas disse que não aceitaria trapacear. Massey disse que lamentava o dia em que “talvez nos convençamos de que a única maneira de preservar a República é implementar políticas que são contrárias às ideias fundadoras da República”.
Um sentimento semelhante foi expresso pelos legisladores estaduais republicanos “América Primeiro” em Indiana que se recusaram a obedecer à exigência de Trump de eliminar distritos com tendência democrata. Na recente primária republicana lá, cinco desses legisladores perderam para candidatos que abertamente concorreram com base em sua disposição de colocar Trump em primeiro lugar.
O deputado estadual Spencer Deery, um dos republicanos que sobreviveram ao tsunami de dinheiro pró-Trump para derrubá-los, disse à NBC News: “Nunca vou me arrepender de ouvir os eleitores e fazer a coisa certa.”
Isso não é uma daquelas coisas de “os dois lados estão fazendo”. Tudo o que a Califórnia fez e a Virgínia tentou fazer em termos de redesenho fora do ciclo foi baseado em votos estaduais —não em truques legislativos.
Lá Fora
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Foram apenas temporários e foram iniciados em autodefesa contra o esforço de Trump de eliminar assentos democratas em todos os estados possíveis, começando pelo Texas.
Então deixe-me terminar onde comecei: o “redesenho” de meio de ciclo de Trump não é política como de costume, mas trapaça. E o fundo escuso de US$ 1,8 bilhão que Trump estabeleceu para pagar “vítimas” da suposta perseguição judicial do governo Biden —que, como o conselho editorial do Washington Post observou, “pagará por dois anos antes de convenientemente deixar de existir logo após a eleição de 2028, garantindo que os democratas nunca tenham controle sobre o dinheiro”— não é negócio como de costume. É roubo dos nossos impostos.
Os democratas ainda podem conseguir votos suficientes nas eleições de meio de mandato para superar essa trapaça e roubo descarados. Mas se isso não acontecer —se for precisamente essa negociata suja que impeça os democratas de tomar a Câmara mesmo que vençam esmagadoramente no voto popular nacionalmente— as pessoas não vão aceitar isso de braços cruzados. E não deveriam.
Eu me preocupo com o futuro da República se isso acontecer. Você empurra, empurra, empurra —e nunca sabe quando cruzou a última linha vermelha e eliminou a última norma e todo o nosso sistema de governo simplesmente começa a desmoronar.
É exatamente para onde Trump e os republicanos “Trump Primeiro” estão nos levando.
Fonte ==> Folha SP