A ameaça de uma nova greve nacional de caminhoneiros deixa o governo em estado de alerta pelo risco de se repetir o cenário de caos provocado pela paralisação de 2018.
Na ocasião, a greve, que durou dez dias, foi motivada principalmente pela alta constante do preço do diesel e pela política de reajustes adotada pela Petrobras, que acompanhava as variações internacionais do petróleo e do câmbio.
Com os custos operacionais subindo rapidamente e fretes considerados insuficientes, a categoria organizou bloqueios em rodovias de praticamente todos os estados, interrompendo a circulação de cargas e pressionando o então governo de Michel Temer (MDB). Iniciada no dia 21 de maio, a mobilização ganhou força em poucos dias, paralisando setores inteiros da economia.
O episódio expôs, de forma dramática, a dependência do país do modal rodoviário. Houve desabastecimento de combustíveis, interrupção no fornecimento de alimentos, cancelamento de voos, queda na produção industrial e agropecuária e nas projeções do Produto Interno Bruto (PIB).
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Variação no preço do diesel foi estopim para greve de 2018
O principal fator que levou à mobilização foi a adoção de uma nova política de preços da Petrobras, em julho do ano anterior. Sob a gestão de Pedro Parente, a empresa implantou o preço paridade de importação (PPI) para recuperar sua saúde financeira e credibilidade no mercado internacional, após anos de intervenções estatais que geraram prejuízos bilionários.
A metodologia previa que os preços praticados em suas refinarias deveriam acompanhar as flutuações do mercado global, considerando o preço do barril de petróleo e a variação do dólar, além de custos de frete e margens de risco.
Na prática, a política trouxe forte volatilidade. Em menos de um ano, o diesel nas refinarias subiu 56,5%, de R$ 1,50 para R$ 2,35 por litro. Em alguns períodos, os reajustes chegaram a ser diários.
Para o caminhoneiro autônomo, essa imprevisibilidade era desastrosa por impossibilitar planejamentos financeiros, transformando a atividade em uma operação deficitária para milhares de trabalhadores. Diferentemente de grandes transportadoras, o autônomo operava com contratos de frete fechados em valores fixos, sem cláusulas de reajuste automático para o combustível.
A categoria criticava a PPI, defendia a criação de uma tabela de valor mínimo para o frete e pedia que o governo zerasse as alíquotas de Cide, PIS e Cofins sobre o diesel, argumentando que o Estado deveria atuar como um amortecedor para as variações internacionais.
Os protestos visaram pontos estratégicos de estrangulamento. Bloqueios na Rodovia Presidente Dutra, que liga São Paulo e Rio, e em acessos a portos como os de Santos (SP) e Paranaguá (PR) cortaram as principais rotas de escoamento.
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De cancelamentos de voos à inflação e falta de combustível
Em poucos dias, o Brasil experimentou uma transição da normalidade para um estado de colapso logístico. Aeroportos internacionais, como o de Brasília, ficaram sem combustível de aviação, resultando no cancelamento imediato de voos e no isolamento de capitais.
O efeito mais visível para a população urbana foi a “seca” nos postos de combustíveis. No ápice da crise, em 27 de maio, mais de 90% dos postos de gasolina em estados como Bahia, Minas Gerais e no Distrito Federal estavam completamente desabastecidos.
As poucas unidades que ainda tinham estoque registravam filas quilométricas, com motoristas aguardando até 12 horas por combustível, muitas vezes vendidos a preços abusivos e com limite de volume por consumidor.
Nos supermercados, itens perecíveis, como frutas, verduras e laticínios, sumiram das prateleiras em menos de 72 horas.
A resposta do governo, inicialmente tímida, escalou para a autorização do uso das Forças Armadas por meio de decretos de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para escoltar comboios e desobstruir vias.
Agronegócio foi um dos setores mais prejudicados
A greve dos caminhoneiros de 2018 ocorreu em um momento em que a economia brasileira tentava se recuperar da recessão de 2015-2016. O agronegócio foi um dos setores a enfrentar o maior prejuízo com perda de investimentos.
Sem a chegada de ração às granjas e o transporte de animais para o abate, milhões de aves morreram de inanição ou foram sacrificadas de forma emergencial para evitar o canibalismo e a propagação de doenças. No setor de laticínios, viralizaram imagens de produtores derramando milhares de litros de leite no chão.
A indústria sentiu o golpe de forma mais aguda e imediata. Em maio de 2018, a produção industrial nacional registrou uma queda recorde de 10,9% em comparação com o mês anterior, a pior taxa desde a crise financeira global de 2008.
O efeito persistiu por meses, e a perda de produção em maio não foi totalmente compensada pela recuperação nos meses seguintes.
Acordo para fim da greve
Após dias de negociações e a crescente pressão da opinião pública e dos setores produtivos, o governo federal anunciou um pacote de concessões em 27 de maio para pôr fim à greve. O custo fiscal foi estimado em R$ 13,5 bilhões, o que exigiu cortes profundos em outras áreas do orçamento.
O principal ponto do acordo foi a redução imediata de R$ 0,46 no preço do litro do diesel nas bombas, por meio da isenção da Cide, de um corte em PIS e Cofins e da criação de um programa de subsídio direto a produtores e distribuidores.
A criação de uma tabela de preço mínimo de frete foi uma das vitórias mais comemoradas pelos caminhoneiros autônomos ao fim da greve.
O tabelamento, no entanto, não foi bem recebido por embarcadores e pela indústria, que alegaram violação dos princípios de livre mercado e constitucionalidade, levando o caso ao Supremo Tribunal Federal (STF).
A greve dos caminhoneiros de 2018 teve ainda consequências institucionais. Pedro Parente, que havia assumido a Petrobras com a promessa de independência técnica e autonomia para aplicar o PPI, viu sua posição tornar-se insustentável à medida que o governo intervinha para conceder descontos e suspender reajustes diários.
Seu pedido de demissão, em 2018, foi comemorado por centrais sindicais e pelos grevistas, que o viam como o responsável pela volatilidade nos preços do diesel. A saída de Parente, no entanto, provocou uma queda de 34,6% no valor das ações da Petrobras, que perdeu R$ 126 bilhões em valor de mercado no auge da crise. Em 2023, a PPI foi abandonada.
Fonte ==> UOL