O k-pop tem conquistado mais espaço em festivais de música pelo mundo, inclusive como atração principal. Blackpink foi headliner do Coachella de 2023 e J-Hope, do BTS, e Twice do Lollapalooza Chicago, em 2022 e 2025. O Seventeen se apresentou no Glastonbury, na Inglaterra, em 2024, e o Red Velvet no Primavera Sound Espanha 2023. Com tantos exemplos, os fãs brasileiros do pop da Coreia do Sul começaram a questionar: por que o mesmo não acontece aqui?
Dificuldade de conciliar agendas, moeda desvalorizada, concorrência e desinteresse de artistas sul-coreanos estão entre os motivos listados por produtores do Lollapalooza e Rock in Rio, que estreiam o gênero no Brasil neste ano. Riize faz show em São Paulo, neste sábado (21), e Stray Kids, Hwasa e Nexz se apresentam em 11 de setembro, no Rio.
Marcelo Beraldo, diretor artístico do Lollapalooza na América do Sul, acha que o festival demorou para incluir o pop coreano. “Para o Lolla se manter atual, não dá para fingir que o k-pop não existe”, ele afirma. “Quando contratamos alguém, a gente tenta entender o valor para aquele artista ou banda dentro do conceito inteiro do festival. Então ter duas, três ou até mais atrações de k-pop em um festival que tem 70 atrações é quase que uma obrigação.”
Beraldo diz que tenta fechar negócio com artistas do gênero desde antes da pandemia, e já sondou nomes como Twice e TXT. “Mas é difícil. Mesmo fora de festival, o fluxo de k-pop na América do Sul é menor. Essas atrações têm uma agenda concorrida.” Ele explica que as contratações da edição brasileira são feitas em conjunto com Argentina e Chile. “O primeiro passo é que os países concordem, e nem sempre é fácil. Mas, se tratando de k-pop, é algo que todos nós queremos.”
“Neste ano, acho que tivemos um pouco mais de sorte. É sempre uma combinação de agenda com oportunidade. Surgiu a oportunidade e os três países concordaram”, diz ele sobre a escalação do Riize, e completa que já está sondando artistas para os próximos anos.
O sexteto toca em horário nobre, às 21h30, e também faz show solo nesta quinta (19). Além deles, o line-up traz no domingo (22) a DJ sul-coreana Peggy Gou e o grupo Katseye, que não é k-pop, mas é gerenciado pela empresa do BTS e transita entre fãs do gênero. Da Coreia do Sul, o Lollapalooza já trouxe as bandas indies Wave to Earth, no ano passado, e The Rose, em 2023 –que entrou como substituição.
No fim, tudo se resume a negócios, avalia Beraldo. O real e os pesos argentino e chileno desvalorizados frente ao dólar e euro é um dos entraves. O mercado local é menor do que o dos EUA, Europa e Ásia e, apesar do k-pop ter público, sobretudo no Brasil, ele ainda é limitado.
“Quando a gente tenta trazer alguém, não competimos somente com outros festivais ou promotores na América do Sul, é uma competição global”, afirma. Soma-se a isso a dificuldade logística, tanto pela distância da Coreia do Sul quanto pelas equipes numerosas. “Tudo isso vai encarecendo.”
Participar de edições como a de Chicago, que funciona como uma vitrine global, é mais atraente para esses artistas, observa o diretor artístico. Nas da América Latina, nem tanto. “Por mais que sejam grandes, Brasil, Argentina e Chile ainda são um mercado secundário. Eles vivem sem a gente. Então, somos apenas uma opção a mais.”
E, quanto mais popular fica o k-pop, mais competitivo fica para trazer artistas. Por outro lado, escalar mais nomes ajuda a mostrar o potencial que o gênero tem na região, provocar interesse das gravadoras e facilitar próximas negociações.
A ideia de incluir o pop coreano no Rock in Rio nasceu na última edição, que celebrou quatro décadas. Luis Justo, CEO da Rock World, empresa que organiza o festival, reforça que o evento atravessou gerações de público e tendências musicais nesse período. “Novos gêneros passaram a ser incorporados sempre que eles ganhavam um escala de influência cultural, ao estar nas paradas de sucesso e nos streamings, como no passado já foi com o trap e o funk”, explica.
“O k-pop, sem dúvida, foi ganhando cada vez mais esse espaço. Ele saiu de um lugar de nicho para se tornar uma cultura popular. Então a gente entendeu que já era mais do que hora dele fazer parte do Rock in Rio”, completa Justo, e reforça que, apesar do rock no nome, sempre foi um festival que une diferentes estilos.
De 2024 para cá, ele começou a checar a disponibilidade de artistas e pensar num que fizesse sentido para a curadoria. Escalaram como headliner do dia 11 de setembro o Stray Kids, um dos grupos mais populares hoje, que atraiu cerca de 160 mil pessoas em três shows no Rio e São Paulo no ano passado. O número mostrou que a boyband tem fôlego para estar no palco principal.
“Estamos falando de um festival que reúne 100 mil pessoas por dia, são dois estádios lotados”, observa Justo. O CEO diz que sempre mirou os nomes grandes, para inaugurar o gênero como atração principal. “Com o Stray Kids conseguimos combinar disponibilidade e interesse deles de estar num festival do porte do Rock in Rio, com a visibilidade que ele tem para a América Latina.”
O palco Mundo também recebe Hwasa, cantora do Mamamoo, conhecido como um dos melhores grupos vocais dessa indústria, que vem construindo uma carreira solo de sucesso. Seu single mais recente, “Good Goodbye”, atingiu o topo de todas as paradas coreanas simultaneamente. O grupo coreano-japonês Nexz, da mesma gravadora do Stray Kids, abre as apresentações do dia.
A aposta já refletiu na venda de ingressos —o Rock in Rio Card esgotou em menos de uma hora. “Queremos ter certeza do que estamos trazendo, para garantir que é um investimento de tempo e que faça sentido para fã, festival e artista”, diz Justo.
Ele vê na inclusão do k-pop uma chance de levar ao Rock in Rio um público que nunca frequentou festivais de música, sobretudo os jovens. Beraldo, do Lollapalooza, no entanto, nota que “o pessoal mais velho tem um certo preconceito, ainda não entende direito o fenômeno”.
O CEO está confiante de que o gênero será presença carimbada em line-ups no país a partir de agora. “O k-pop veio para ficar, e estará mais presente em futuras edições, não só no Rock in Rio, mas no Lollapalooza e no The Town também”.
Fonte ==> Folha SP