Sentir-se “sem família” na época mais família do ano é angustiante, desconcertante e profundamente desafiador. Coloco o “sem família” entre aspas porque, racionalmente, sabemos que a família não desapareceu: ela está se reconfigurando. Esse processo envolve distâncias difíceis, mas também espaços necessários para preservar (ou restaurar) o respeito, o carinho e os desejos que um dia se alinharam e, aos poucos ou repentinamente, se tornaram conflitantes e distantes.
A questão é que existem épocas do ano menos racionais do que outras. A física quântica defende que o tempo não é linear e a psicanálise entende que o luto também não é. Há datas que funcionam como espécies de “buracos negros” que nos puxam para uma outra dimensão —mais melancólica, titubeante e, as vezes, culpada.
O fim do ano é uma dessas. Mesmo atravessado pela lógica comercial, ele carrega uma carga emocional e simbólica que traz consigo um imperativo da conexão: “estar com os seus”, sentir esperança, viver fartura de afeto e proximidade. Por isso irrita tanto perceber-se incomodado pelas propagandas e posts dos amigos com famílias reunidas montando a árvore —aquela que atacava sua rinite e atrapalhava a circulação da sala, mas que agora faz falta naqueles metros quadrados que nunca pareceram tão grandes.
É como se você estivesse vivendo uma versão contemporânea de “Um Conto de Natal”, de Dickens. Como o protagonista, você também é visitado pelos fantasmas do Natal passado —a nostalgia da família conectada, dos sonhos partilhados— pelos fantasmas do presente, que escancaram o silêncio da casa, e pelos fantasmas do futuro, que sussurram destinos fatalistas embalados por culpa: “desfiz minha família”, “causei essa solidão”, “meus filhos sofrem por minha causa”. Buscar culpados é uma tentativa de encontrar contorno para o que ainda é puro desamparo.
E o cruel é que essa culpa, muitas vezes, é alimentada pela dor do ex-companheiro —que tenta dar sentido ao próprio vazio responsabilizando você— e pelo incômodo das crianças, que expressam a tristeza e a frustração ao terem ganhado de presente vai e vem de guarda compartilhada.
Esse vazio incomoda tanto pois, mesmo com a desconstrução dos modelos tradicionais, persiste um fetichismo da ideia de família: como se ela simbolizasse tanto a reparação das faltas e negligências da sua família de origem quanto a vitória do amor, da solidez e da união em tempos voláteis. Ter uma família escolhida por você e pelo outro, e materializada em filhos, parece garantir um lar emocional para onde voltar. Mas é nessa promessa de colo e aconchego eternos que corremos o risco de ficar presos a um significante que, na prática, já significava pouco. Aqui vale lembrar: como vocês estavam quando decidiram se separar? Há quanto tempo as noites deixaram de ser “felizes”, como canta a música natalina?
Sim, algo se quebrou. Para além da saudade do que vocês foram, há lutos tão ou mais cortantes: o da vida que você imaginava construir, da relação que desejava ter, da versão de si que projetava, dos planos, do futuro, do lugar emocional que ocupava.
Existe uma libido investida no projeto de família que agora está sem destino. Neste Natal, se dê de presente tempo e espaço para que ela —e você— possam divagar, devagar. Aceitar que este será um fim de ano mais angustiado e turbulento não significa que você arruinou sua vida ou a de seus filhos. Tampouco que essa sensação de desamparo será permanente. Significa apenas que você está vivendo a dor do que um dia foi amor. Você está sendo humano. As resoluções não precisam surgir na virada. Esta não precisa ser uma “noite feliz”; pode ser apenas uma travessia possível. Honrar a dor, em vez de tamponá-la, é um presente valioso.
Permita-se ser um pouco mais melancólico. Busque companhia mesmo quando não se sente a melhor companhia. Peça colo para quem é bom de colo: presença, escuta, compartilhamento de vulnerabilidades. Aos poucos, você perceberá que todos, à sua maneira, estão lidando com algum fantasma do seu próprio Natal passado.
Crie novos rituais com suas famílias escolhidas. Não se trata de negar a ausência do antigo núcleo familiar, mas de inaugurar gestos que marquem o recomeço —ainda que lento e imperfeito.
E acolha também o incômodo das crianças: no começo é difícil mesmo, dá saudade, tudo parece estranho. Mas diferente não é sinônimo de pior. É apenas… novo. E o novo, ainda que tímido, também pode ser um lugar de reencontro e reconstrução; um outro formato de família, que honra as faltas e as diferenças, mas também a nossa capacidade de seguir acreditando e reconstruindo o amor.
E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.
Fonte ==> Folha SP