Crescimento acelerado da população idosa expõe limites do modelo assistencial atual e reforça a necessidade de cuidado transicional (Transitional Care) e reorganização do sistema
O envelhecimento acelerado da população deixou de ser uma projeção para se tornar uma realidade com impacto direto nos sistemas de saúde no Brasil e no mundo. Dados do IBGE mostram que o número de pessoas com 60 anos ou mais saltou de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024, um crescimento de 53% em pouco mais de uma década. Hoje, esse grupo já representa cerca de 19,7% da população brasileira.
Esse movimento demográfico vem acompanhado por uma transformação no perfil epidemiológico. O aumento das doenças crônicas, das limitações funcionais e da necessidade de acompanhamento prolongado exige um modelo assistencial mais contínuo, integrado e eficiente, diferente do modelo tradicional, historicamente estruturado para responder a eventos agudos.
Na prática, o impacto já é evidente. A maior demanda por cuidado contínuo tem elevado a ocupação hospitalar, ampliado custos assistenciais e exposto fragilidades na organização da continuidade do cuidado. Ao mesmo tempo, cresce o número de idosos em situação de vulnerabilidade: mais de 5,6 milhões vivem sozinhos no Brasil, segundo o Censo, o que reforça a necessidade de suporte estruturado fora do ambiente hospitalar.
Para Amanda Aflísio de Abreu, enfermeira com 16 anos de experiência na área da saúde e atuação em gestão do cuidado, o principal gargalo está na fragmentação do sistema. “O sistema ainda funciona de forma fragmentada. Ele responde bem ao evento agudo, mas não acompanha o paciente ao longo do tempo. Isso faz com que o ciclo de internação e reinternação se repita”, afirma.
Segundo Amanda, hospitais vêm sendo pressionados a assumir funções que vão além de sua vocação original, o que compromete a eficiência do sistema. “Hoje, muitos leitos estão ocupados por pacientes que já não precisam de alta complexidade, mas que também não têm suporte adequado fora dali. Isso gera ineficiência, eleva custos desnecessários e impacta toda a estrutura de saúde”, explica.
Diante desse cenário, modelos baseados em cuidado transicional (Transitional Care) e coordenação do cuidado ganham protagonismo como estratégias essenciais para reorganizar a jornada do paciente e garantir continuidade assistencial.
“A saúde precisa deixar de ser episódica. O envelhecimento da população exige um modelo contínuo, integrado e planejado. Sem essa mudança, o sistema se torna cada vez mais caro e menos resolutivo”, destaca.
A ampliação de modelos assistenciais mais adequados ao perfil do paciente (assistência domiciliar, cuidados paliativos, instituições de longa permanência e hospitais de transição) permite redistribuir o cuidado de forma mais eficiente, reduzindo a sobrecarga hospitalar e melhorando os desfechos clínicos. “Não se trata apenas de liberar leitos, mas de colocar o paciente no ambiente correto. O cuidado precisa acompanhar a evolução clínica. Quando isso não acontece, o sistema perde eficiência e o paciente perde qualidade de vida”, afirma Amanda.
Outro ponto crítico está na necessidade de profissionais preparados para lidar com esse novo cenário. A gestão do cuidado passa a exigir integração entre serviços, tomada de decisão baseada em indicadores e coordenação entre equipes multidisciplinares, reforçando a importância de uma abordagem mais estratégica e sistêmica.
O cenário tende a se intensificar nos próximos anos. O envelhecimento ocorre de forma consistente em todas as regiões do país, com maior concentração de idosos no Sul e Sudeste, regiões que já enfrentam pressão sobre a rede assistencial. Em nível global, a tendência é semelhante, ampliando o desafio para sistemas de saúde em diferentes contextos.
Diante desse contexto, o cuidado transicional (Transitional Care) se consolida como um dos pilares para a sustentabilidade dos sistemas de saúde, ao permitir maior eficiência na gestão de recursos, redução de readmissões e melhor acompanhamento de pacientes crônicos.
Com o avanço acelerado da população idosa, a reorganização do sistema de saúde deixa de ser uma pauta futura e passa a ser uma urgência estrutural. Mais do que ampliar capacidade, será necessário redesenhar o modelo assistencial para uma realidade mais longeva, mais complexa e que exige cuidado contínuo ao longo de toda a jornada do paciente.
Amanda Aflísio de Abreu é enfermeira com 16 anos de experiência na área da saúde, com atuação em gestão clínica e operacional em hospitais, operadoras de planos de saúde e assistência domiciliar. Especialista em cuidado transicional (Transitional Care), coordenação do cuidado e otimização da jornada do paciente, possui experiência na liderança de equipes multidisciplinares e na implementação de modelos assistenciais voltados à eficiência, segurança do paciente e cuidado humanizado. Ao longo de sua trajetória, atuou na implementação de modelos de transição do cuidado e organização da jornada do paciente, contribuindo para a melhoria de desfechos clínicos, redução de custos assistenciais e maior eficiência dos sistemas de saúde.