‘Aurora’ leva crônicas de Paulo Mendes Campos ao palco – 09/12/2025 – Mise-en-scène

'Aurora' leva crônicas de Paulo Mendes Campos ao palco - 09/12/2025 - Mise-en-scène

“Aurora” se propõe à difícil tarefa de traduzir o poeta e escritor Paulo Mendes Campos para a cena. Em vez de focar na narrativa, o diretor Rodrigo Penna aposta na atmosfera, materializando no palco a essência da crônica brasileira: aquele encontro perfeito entre a elegância literária e a simplicidade do cotidiano.

O espetáculo se organiza como um mosaico de vozes. Fragmentos de textos sobre o amor que esfria, a infância em Belo Horizonte, a boemia carioca, o tédio doméstico são costurados com habilidade no palco. A famosa crônica “O Amor Acaba” é desdobrada em cenas curtas, quase estáticas, que mapeiam o desaparecimento do afeto como quem cataloga espécies. O efeito é atmosférico.

Os três atores — Gustavo Damasceno, Kadu Garcia e Julia Konrad — operam como mediadores. Eles não “interpretam” Campos, nem criam ficções sólidas em torno de seus textos. Antes, transitam pelas palavras, às vezes narrando, às vezes corporificando uma imagem, às vezes observando de fora, como leitores em voz alta. Julia Konrad, em particular, desloca a mulher do lugar de objeto lírico para sujeito da fala, dando espessura a figuras que nos originais muitas vezes são musas ou sombras.

Visualmente, o espetáculo rejeita uma possível reconstituição de época. A cenografia e as projeções de Batman Zavareze criam um ambiente abstrato, onde cores planas — azuis profundos, vermelhos terrosos — definem zonas de sentido. As imagens projetadas remetem à estética urbana contemporânea: grafite, colagem digital e interferências visuais. É uma escolha inteligente: em vez de embalsamar Campos nos anos 1950, a encenação propõe que seu olhar sobre a cidade, o tempo e o desejo encontre eco na visualidade das ruas de hoje.

A trilha sonora segue a mesma lógica. Longe do clichê da bossa nova saudosista, os beats eletrônicos e as camadas de som criam uma paisagem auditiva atual, que dialoga com o ritmo interno da prosa. A palavra é tratada com precisão de partitura: os atores a declinam, alongam, sincopam. Em certos momentos, a fala quase vira spoken word, noutros, conversa íntima. O som não acompanha, conversa.

Há um risco claro nesse tipo de empreitada: o de a reverência ao texto gerar um teatro estático, literário demais. “Aurora” escapa disso pela fisicalidade do elenco e pela dinâmica quase musical que Penna impõe ao conjunto. Os atores se movem com um propósito coreográfico; seus corpos pontuam, contraponteiam, silenciam.

No fim, o que fica é a sensação rara de ter tido acesso a um mecanismo de pensamento. “Aurora” quer nos fazer perceber como a escrita de Campos organiza o mundo — e como essa organização ainda faz sentido. É um teatro de inteligência afetiva, onde o sentimento é construído palavra por palavra.

Três perguntas para…

… Rodrigo Penna

O processo de roteiro envolveu muitas revisões e versões. Como foi esse trabalho de destilar uma vida e uma obra em cena? Como a Adriana Falcão participou desse processo?

Foram anos estudando a obra do Paulo, e dos outros 3 cavaleiros do apocalipse. Só quando entendi que já tinha lido tudo dele publicado comecei a ver as seleções. Estreamos com a versão 43 do roteiro. E confesso que já vamos para a 44ª.

Paulo tem livros infantis, de poesia, coletâneas temáticas, sobre futebol e bares, por exemplo. Foi uma linda aventura conhecer o homem e a obra, sem pressa. Tive o privilégio de conhecer Joan, a viúva do Paulo, que também hoje já se foi.

Adriana é nossa madrinha! Foi ela quem me apresentou a obra de Paulo, uns 15 anos atrás. Importante lembrar que dirigi também uma adaptação para o teatro em 2005 de crônicas de Adriana Falcão e Luciana Pessanha, outra escritora que amo do Rio, chamava-se “Eu nunca disse que prestava”.

Eu e Adriana, além de grandes amigos, trocamos sempre belezuras que nos encantam. E Adriana me ajudou, mais que a roteirizar, a encontrar o tom, a cara das minhas escolhas de texto. Digamos, ela me ajudou a encontrar o “meu Paulo”

A palavra é força motriz do trabalho. Como se traduz a materialidade do texto literário para a cena, envolvendo outras linguagens artísticas, sem perder essa essência?

Nossa matéria prima também é nosso produto final; a palavra é dita, contada, lida, projetada, sampleada, repetida, exacerbada, contida, muda e gestual. Sem conflitos, tramas e curva dramática, nossa peça apresenta, oferece, os textos e palavras do Paulo como iguarias, “pequenas ternuras” compartilhadas.

O que na obra e na vida do escritor homenageado mais ressoou com você e deu o impulso inicial para este projeto?

Seu olhar doce sobre a vida, sobre o outro, sobre as cidades, sempre tão humanamente urbano; nesse vai e vem Minas-Rio. Também carrego no sangue as montanhas de Minas e a maresia carioca.

CCSP – rua Vergueiro, 1.000, Liberdade, região central. Qui. a sáb., 20h. Dom., 19h. Até 14/12. Duração: 80 minutos. Grátis. Ingressos disponíveis diretamente no site do CCSP e presencialmente.



Fonte ==> Folha SP

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